quinta-feira, 14 de maio de 2015

SOBRE A SAUDADE

A saudade
Este sentimento que dói por dentro
Visceral e demoradamente
É ao mesmo tempo
O consolo, a lembrança
A certeza de que levamos conosco
Como um pedaço de nós
Quem amamos.

PASSARINHO

Quero ser, quem sabe
Um passarinho:
O mais pequeno e frágil deles,
A passear por uma árvore qualquer,
Tornando-me dela sutil e breve detalhe…
Um passarinho dentre milhares de outros,
Passageiro, livre e descompromissado.
E ajeitar minhas penas sobre os galhos,
E dançar ao sabor do vento
E assobiar uma cantoria
Cujo destinatário poderia bem ser você.

segunda-feira, 9 de março de 2015

PERDOADO (GALOPE À BEIRA-MAR)


Cruzei oceanos nas lágrimas tuas;
Ferir-te me foi um pecado, porém
Ganhei, esforçado, o perdão sem desdém,
Depois de uns tempos de dores tão cruas…
Negando com medo, sorvendo das ruas
O amargo ardoso de angústia, a chorar,
Tragado nos goles de pinga no bar;
Não tive, entretanto, amigos nem nada
De bons, que ajudassem à minha empreitada,
Cantando remorsos na beira do mar.

Mas, saibas, depois de lavada minh'alma,
Chegou a coragem: pedi-te desculpa
Exausto, arrasado, tamanha era a culpa
Que me consumia. Ergui-me com calma
Pulei de alegria em ver que a palma
Da mão se abria, acolhendo-me a amar…
E disse: - Recebo, se a mim respeitar.
Pulei de espanto, com aquela bondade;
Daí em diante, mudei de verdade.
Fiz este poema, na beira do mar.

quarta-feira, 4 de março de 2015

ERRO VENCIDO

Na carta, nas letras que ela continha,
Viviam uns versos de ontem, eu sei,
Rasgados, perdidos, depostos da “lei”
Ferrenha, enfadonha, a senil ladainha:

“Não tentes. Não topes. Errar martiriza!”
Mas, penso e discordo: errar nos ensina,
Em ato e em dor, por ser nossa sina,
Que o aprendizado é a mais firme baliza.

Versinhos na carta, perante a tirana
Força restritora, feroz, que esgana…
Diziam lá cálidos, em tom decidido:

“O teu maior medo, ingênua arteira,
É mais miserável que a tua maneira
De rir adiante do erro vencido."

BENEDITO TONHO, SUA LUTA AINDA VIVE (CORDEL)


1.
Deus envia mensageiros
vindos da simplicidade
seja no campo ou cidade
sempre há vivos guerreiros
estes que movem inteiros
coletivos de pessoas
lutando por causas boas
em prol da libertação
gritam contra a opressão
de governos e coroas.

2.
Sucumbem por mão tirana
de covarde ambição
só por terem dito “não!”
ao injusto e sua gana
mas o tempo não se engana
passam páginas de História
e o que fica na memória
do povo à posteridade
é o que defende a verdade
mesmo sem ver a vitória.

3.
Que neste presente ensejo
se retrate um grande home
cuja marca traz no nome
uma luta e um desejo
o qual hoje ainda vejo
pelos cantos do Brasil
ser lembrado seu bravio
exemplo de resistência
marca de uma consciência
que ao medo resistiu.

4.
Era Benedito Tonho
o citado lutador
um caboclo agricultor
que seguiu vias do sonho
de enfrentar o mal medonho
chamado desigualdade
de terra e propriedade
que a uns dá e outros não
e ganhou perseguição
por pregar a liberdade.

5.
Seu lugar era Queimadas
Coreaú - Ceará
desde que nasceu por lá
partiu daquelas estradas
calejou-se nas passadas
que longe lhe levariam
e que também pesariam
no preço da coerência
deixando a referência
militante, aos que viriam.

6.
Envolveu-se em movimentos
junto aos trabalhadores
os quais foram formadores
de diversos regimentos
dispensando armamentos
ao povão organizaram
contra o Regime lutaram
nem que fosse Ditadura
e exercendo a bravura
boa-nova aqui pregaram.

7.
Entrou nas Comunidades
as Eclesiais de Base -
(sigla) CEBs, nesta fase
eram grandes novidades
que dentre as prioridades
elegidas aos cristãos
viveriam como irmãos
partilhando e construindo
a justiça e resistindo
e juntando as suas mãos.

8.
E também se envolveu
na pauta dos campesinos
que traçaram seus destinos
desde que se sucedeu
de cobrar o que era seu
um chão para se plantar
e para se ter um lar
é por isso que reagem
povo contra a vendagem
do que Deus a todos dá.

9.
Era essa a CPT
a Comissão Pastoral
da Terra que, nacional
surgiu para defender
o direito de se ter
pobre e rico, ambos os dois
terra, nisso que propôs
a natureza sabida
que disse que nessa vida
“vós iguais todos já sois!”

10.
Entrou ele nisso tudo
através de um movimento
que tinha como intento
dar ao povo sem estudo
ferramentas, sobretudo
para poder questionar
e depois se colocar
livre e emancipado
contra o que era ditado
pelos patrões a mandar.

11.
Essa tal iniciativa
claramente de valor
foi o Dia do Senhor
uma voz forte e altiva
que espalhou, afirmativa
uma semente vingada
atualmente espalhada
por esses nossos sertões
várias organizações
dele vieram formadas.

12.
Bené e os familiares
desde muito residiam
em Queimadas e faziam
por lá os seus cultivares
respiraram aqueles ares
desde que haviam nascido
no entanto, um fingido
rico ladrão fazendeiro
decidiu como um grileiro
tomar seu torrão querido.

13.
Já viviam em harmonia
como posseiros, a paz
era a única capaz
de mover sua alegria
e tudo que se fazia
servia à comunidade
segundo a fraternidade
nos encontros defendida
a qual sendo proferida
previne a leviandade.

14.
O grileiro arquitetou
documento falseado
onde estava atestado
como sua, registrou
a terra que, então, tomou
usando-se da mentira
mas perante essa traíra
Bené não amoleceu
daí em diante se deu
do grileiro vir a ira.

15.
Ameaças de porção
por sobre a comunidade
fizeram calamidade
abrasaram a emoção
dessa gente que em ação
pôs-se junta a pelejar
pela posse do lugar
onde se havia crescido
e que esse mal surgido
muito veio atormentar.

16.
E a nossa liderança
com sério risco de morte
não brincava com a sorte
alimentando esperança
da chegada da bonança
como prêmio pela lida
resistida e dolorida
comungada com os seus
resguardando a fé em Deus
e entregando sua vida.

17.
Mas seus dias se findaram
quando menos se esperava
quando Bené trabalhava
no roçado lhe abordaram
com um tiro lhe alvejaram
certeiro no coração
no martírio desse irmão
por meio da covardia
do bandido que de dia
veio em ordem do patrão.

18.
Em plena flor da idade
27 ele contava
que no mundo caminhava
e aquela fatalidade
gesto de animalidade
conseguiu lhe derrubar
mas sua luta sem par
inda vive nos que seguem
o exemplo e prosseguem
sempre e sempre a acreditar!

19.
A morte repercutiu
na mídia e nos movimentos
e entre choros e lamentos
o seu povo insistiu
na justiça conseguiu
ter a terra novamente
porém fato deprimente
foi, reinou impunidade
por sobre a realidade
desse nosso combatente.

20.
Não puniram o assassino
pela justiça terrena
mas a maldade obscena
não suplanta o destino
e o povo peregrino
do martírio do irmão
extrai mais motivação
para se erguer e lutar
e a vitória conquistar
pelo amor e louvação!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

POEMA DE INVERNO (1)


A janela esquadrinha a vista da serra
Como um quadro por Deus pintado
O rouxinol que ajeita as penas na goiabeira
É o maestro melhor paramentado
A aquarela de folhas verdes e a cor das flores
Espalha a vida pelos telhados
Quão bom é ser criança, livre e inocente
Para ver em cada vã semente
Um livro aberto a ser estudado.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

MANHÃ INFELIZ

São três ou quatro horas da amanhã
De um dia que não quis nascer feliz.

O relógio morre na parede...

É o destino de um mal aprendiz,
Que fala com remorso dos seus medos,
Ignorando, então, os arremedos
De coragem, que pra si arquitetou.
Mas se volta à janela, o horizonte,
Vê, pungente, o sol à sua fronte...

Segue chorando, ao se lamentar...

Porque a tristeza é um eclipse,
A ignorância, uma venda,
As lágrimas, um oceano,
E o que foge do seu plano:
Isso, sim, só cabe no silêncio.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

CEMITÉRIO

No cemitério, erguido em pleno mato, tudo seco: as juremas, pés de sabiá, ervas rasteiras… Nenhum canto de pássaro por perto. Coroas de flores empoeiradas e velas mortas, apagadas, escorrendo por sobre os túmulos. Fotos desbotadas. Crucifixos tombados. Solidão eterna, estéril, vingativa, ácida, silente.

Na terra de gentes idas - crua e ressequida - jazem histórias e o sal de mil lágrimas perdidas, de centenas de partidas e algumas dívidas. Um turbilhão de nada, de cinza, de morte. E a morte… ela, essa temida… essa velha feia e insistente, certeira e irremediável, aparentou-se também ridícula. É sem graça. Esteve lá à mostra, à minha fronte, em meio ao pó, aos ossos e à dor passada, lavada e penitente.  Eu, encarando a sua face, como antes tantas vezes e como, infelizmente, num depois que ainda não veio, por certo, embora contra minha vontade e rindo-me por dentro… calei meus adjetivos e só observei.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O TREM DE PASSAGEM



O choro é passageiro, meu amor
E a condução deste infortúnio
Tem linha e parada marcada
Tem final para a sua estrada
Entenda
Vai passar
Este trem de angústia no ar
Vai amassar, sucatear
As coisas sem valor
E só as que realmente importam
Resistirão à viagem
Estas não são de passagem
Tem cadeiras cativas
São naturais, são nativas
Do coração da gente

E quanto tudo parar
E houver silêncio
Veremos que a estrada foi breve

Por isso, importa aproveitar a paisagem
E sua importante companhia!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

PERSPECTIVAS

Quanto tempo a gente tem para perder?
Quando a gente se anuncia sem saída,
Quando a vida, estrada crua e perdida,
Recua, nua, e não aponta o que fazer?!

Quanto tempo a gente tem para crescer?
Quando a infância nos persegue incutida,
E a travessia, insistente, é dura lida,
É o tempo eterno de mudança no viver!

E contradigo, hoje mais do que fiz antes,
O tédio incerto que nos ronda, incessante,
Chutando-o longe em cada vã demonstração

De desapego ao que é dado como certo:
E na dúvida, eu me vejo um deserto
De espera, angústia, mas não de decepção!

domingo, 3 de agosto de 2014

ENIGMA N.º 1

A beleza de fora reflete a de dentro
Somente se encontra o que já se sabia
Tirando-se a capa que, ilesa, encobria
A porta possível de um descobrimento.

O mundo revela: velando de novo
Escondendo, esquecendo, o que era da gente
E um dia, quem sabe, num encontro envolvente
Cairá a casca que sela este ovo.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

NOSSA prisão

Pois quantos dias te restam?

É de Talvez e de Quem Sabe
O governo da bússola humana
Que orienta o cego em cativeiro
Perambulando sem direção
No escuro do mistério da prisão
Em que a ignorância e a finitude
São as barras.